domingo, 14 de agosto de 2011

O Comedor de Plásticos (um conto alegórico que preza pela relativização deste conceito) - Repostagem!

-Estivemos todos um dia a falar de náusea nesta “nova” tendência de se apaixonar pelo caos

    Deitado no piso da sacada do apartamento onde mora e mastigando, monologava em voz alta o neto do profeta, só para contrariar a crença que o avô tinha em destinos pré-determinados e que lhe eram divinos presságios.
    Seu avô, profeta do lucro próprio, dissera o seu sonho no início de um futuro império e agora o seu neto de vinte e poucos anos lembrava sua fala ou lembrava o que o pai  lhe tinha dito sobre a fala do falecido avô. A lembrança da lembrança da fala do avô era:

- A matéria sintética será a liga deste mundo cada vez mais moderno!

     Olhava o céu e calava. Logo mil vozes lhe falavam por dentro. Reflexo destas mil vozes era a sua rotineira e despercebida mastigação de vários plásticos fabricados, que lhe resultariam em breve em um grande buraco no estômago, pois aquele movimento impensado de mastigar algo que nunca seria encarado como alimento só liberava ácido gástrico para digestão de coisa nenhuma. As suas mil vozes internas, o anseio, a tentativa de lembrar e a limitação do conhecimento eram nada, e tudo isto era como o plástico em sua boca. Mas algumas vezes lhe acontecia de em uma hora qualquer percebendo que estava mastigando um plástico “morto” (resto ou não de um produto já usado) parar e imediatamente dizer:

- Oh não! Meu estômago!

...E logo em seguida emendar:

- Não faz mal, estava me impondo sobre a matéria sintética globa-alguma-coisa em que vivo: plástico!

...E acabava nostalgiando :

-Que saudades do meu velho avô que eu nunca vi!

...E depois criando a sua impossibilidade:

-Só ele, meu falecido avô, me explicaria sobre o sentido desta matéria sintética.

E por fim cuspia a matéria sintética.

     Esse pobre espírito contrariador tinha fé na irrelevância de tudo. Seus olhos captavam a dissipação das coisas transfigurada na ordem casual dos números em calendários.
    Quando criança, poderia sim ser justificável seu vício por mastigação de plásticos, principalmente embalagens de qualquer coisa, tampas de canetas, borrachas e os seus brinquedos, porque qualquer criança investiga e faz o diagnóstico do mundo pela experimentação das coisas que são neste mundo ingeríveis, não-ingeríveis e tornadas ingeríveis. Já nesta situação juvenil de vinte e poucos anos, esse hábito primeiramente despercebido e depois já aceitável por ele, era encarado pelos outros com total estranheza, o que acabou por lhe fazer afastar desses outros que eram comedores de coisas tachadamente “normais”.
      Ele viveu a vida toda nesta prática. Para ele não bastava só viver e comer coisas plásticas no sentido figurado, como bastava para as outras pessoas, mas sim literalmente mastigar e as vezes comer o plástico bruto. E Vejam que a criança que se tornou jovem inevitavelmente  ia para vida adulta até  o estado de  agora: um homem formado e bem sucedido, porque é o dono de várias fábricas herdadas do império que o avô um dia sonhara. Não só fábricas, mas distribuidoras e lojas da matéria sintética um dia visionada pelo profeta como a liga do mundo e a síntese da sua riqueza. O avô!... Um dia!...A liga do mundo!...
     Contrário a tudo e herdeiro dessa contrariação, ele explodia na execução de seu fetiche vicioso. Consumindo tudo quanto era cultura pop ele mastigava, passando os vários canais da sua televisão ele mastigava, participando da prostituição das pessoas paradas em cada “esquina” vendendo sexo ele mastigava, pensando na insistência desse modelo de reciclagem desgastante ele mastigava, pensando na dobra dos cabelos penteados de toda a sua família e nas suas maquiagens e na piscina e no fast-food ele mastigava, pensando na quantidade de sua memória ele mastigava, pensando no tamanho da sua idiotice ele mastigava, pensando em como não conseguia pedir o perdão ele mastigava, perturbado pelas suas várias vozes internas ele mastigava, perturbado em pensar ele mastigava.
     Ele estava melancolicamente feliz de ter se apaixonado pelo caos, de viver as tendências da sua geração e de estar passando da idade dos 60 e nunca ter nauseado por mastigar plástico. Por não nausear, se orgulhava, pois isso lhe afastava da possibilidade de um dia poder vomitar. Seu trabalho era o de todos os outros, o trabalho de só falar sobre náusea, o de talvez escrever sobre náusea, não! não! Ele não era metido a escritor, ele só monologava e habilmente mastigava. Se a memória não falhasse, como sempre lhe falha ele talvez lembrasse (e abriria sorrisos por verificar que não tinha sido incoerente em suas idéias) que quando jovem ele disse em voz alta num de seus monólogos:

-Estivemos todos um dia a falar de náusea nesta “nova” tendência de se apaixonar pelo caos

    E olhem: As tendências nunca mudam, nunca cansam, nunca morrem, são o plástico reciclável, são o império que vai do avô até a criança, tornada homem, tornada de novo avô. Mas (e há sempre um mas) o homem morre, e de tanto amar o plástico morre de gastrite do nível mais alto: úlcera ou câncer, pois o rombo no estômago é irreversível.
    E aqui agora, jaz o Comedor de Plásticos, herdeiro de um grande império que passará aos domínios de outro. Jaz vítima, em plena praça, dum Shopping Center rodeado de estabelecimentos de venda, muita venda, vendado e engasgado por seu sangue, molhado em lágrima, com dentes deformados, com mandíbula deslocada, em seu terno de trabalho, com as chaves do carro que deixara aberto em uma rua qualquer, com o buraco no estômago cultivado desde a infância e literalmente cheio dos mais variados tipos e insabores da liga do mundo cada vez mais moderno.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

É o que chamam de Delírio de Retorno! (Acordes da madrugada)

Obs: Em cada acorde eu falava desAcordos em contato informal com o mundo debaixo de significados revistos para as Avessas do Desacordo!

I Acorde
Eu volto à inanição, motivo que tinha esquecido dentro da rejeição da linguagem que definem por poética. Eu! um mendigo sem identidade! Um cachorro louco! Um senhor que ouviu, ouviu sua voz num poço como o barulho daquela pedra que se joga para constatar a água, a vida.

II Acorde
A inanição, que é a beira da morte da fome, um tal êxtase simbólico, um filtro da Rotina em Ruínas me pede retorno mesmo a Esmo!

III Acorde
Tudo é muito bom! O ar puro dos corpos em imediata produção de células é muito bom e o tempo que vai gastando essa produção, Inanição! Muito bom até quando parar de ser. Ser por toda a vida é o que se deve ser!

IV Acorde
Forma de dizer bulhufas e discursos políticos: bulhufas!

V Acorde
Mar agitado no copo quase frio de café, entre a descoberta da boca racional que prevê o quê, o quê? Previsibilidade sensorial por entre as juntas das maquinaria do corpo esquecido humano . Lembre-se! Lembre-se! Repita tudo que vier a mente! Duas vezes! Para dar ênfase e não cobrir de esquecimento!

VI Acorde
Não durmi direito e agora vou constituir a música dos dias!