quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Elegia de uma geladeira velha! (investigo os rastros)


    Abriram a Porta-Visão que eu tinha, e de dentro dos meus compartimentos tiraram com o poder da decisão, qualquer coisa para esgotar a fome individual. Fecharam a minha porta e de repente tudo escureceu mais uma vez. De mim para mim, digo que não vi forma definida de quem abriu ou de quem fechou. Isto de  abrirem  e se servirem dos alimentos que eu conservava sempre aconteceu sem diferenças grandiosas. Mas naquele instante específico sem especial referência, ousei questionar ou refletir a minha situação existencial.
    Pensando o ser que a muito tempo já se afastara do lugar onde eu estava, o canto qualquer de uma cozinha, começo um monólogo como se o próprio ser, sem forma aparente, estivesse em minha frente me escutando ensandecidamente falar:

-Você deve ser o segredo que sustenta as mensagens subliminares de qualquer espécie. Sempre se vai e deixa rastros que me quebram a idéia líricamente imposta de uma cabeça- refrigerador.
Eu sou esta geladeira velha estalando de 15 em 15 minutos num silêncio mortífero. Eu não percebo o silêncio quando estou a pleno vapores elétricos de gerador, mas quando, de um susto, há um estalo marcando o extremo das energias, dou de cara com o corpo fechado ao meu redor, que é a surdez fatídica do espaço. 
Não fará a mínima diferença aos outros eletrônicos que coexistem comigo a minha presença congelante, mas acho importante considerar que vez em quando abro as portas para descongelar e esvaziar meus ares. Não haverá repentina atitude de mudança por se atentar a uma geladeira velha carregada do peso assaz responsável do passadismo.
Sirvo apenas para a conserva dos alimentos, pois tudo é um ciclo de conserva. Eu também, devo estar catalogada em algum grau da conserva geral das Coisas. Mas experimente não consumi-las para ver se elas não apodrecem da mesma forma, e pior, apodrecem, existem pra si, mas pra outros têm o mesmo valor-neutro de tudo ao mesmo tempo como um desejo de conquista: nada. Enfim vou estar autorizada-possibilitada a ficar criando um gás artificial que fará completa minhas funções e minha impossibilidade de ser qualquer outra coisa que não a geladeira feliz que cogela-descongela, e protege os alimentos de um ciclo eletro-domesticado meio permeado de carne, botões, sangue, compartimentos ,nervos, ferro, água, plástico...constituição de tudo que pode ser importante para a execução e encerramento das minhas funções!

     Repentinamente me Calei e consumi sozinha meu silêncio, não queria vê-lo apodrecer. O tal estalo que se dava de 15 em 15 minutos marcou esse estado-silêncio da minha presença, mas na hora de voltar a gerar forte energia e criar certa música meio incomoda a quem ouvia, resolvi que era melhor continuar calada, e fiquei calada. Uma entidade superior que chamam técnico em eletro-dosmésticos constatou a profecia escrita no Manual Instrutivo que sempre esteve comigo: eu havia queimado por excesso de uso, e  fico feliz com este fim bem aproveitado por toda uma vida de serviços prestados. Agora estou no Ferro velho onde tudo é mais claro e compreensível, e onde sempre estou em off de refrigeração. Eis que por motivo de buscar revisão rápida de toda minha vida faço gigante esforço, e abro a fonte dos meus pensamentos mais uma vez. Gasto as reais últimas energias que me sobraram para contar essa história a vocês.
Logo...
logo acabam as reservas das baterias!
Pasmem ao saber que tenho baterias
e pasmem com meu Último modelo lançado em loja
e até mais nunca!

Um comentário:

  1. Ramon, muito muito bom o texto. Infelizmente, não é só a geladeira que é descartável e trocada uma mais nova.

    Abraços.

    ResponderExcluir