sexta-feira, 30 de julho de 2010

O minúsculo essencial de cada um de nós ou isso se explica única e exclusivamente pelo fato da existência.

    

    Olhara pelo menos dez vezes ao mesmo tempo a mesma imagem, era sensível e não sensibilizada. Num gesto estranho que para nós parece um esfregar de mãos sinalizando preparo e ansiedade, ela iniciara o processo de corrosão e absorção de qualquer corpo apto a sofrer os efeitos de seu ácido natural.
   Aos humanos com as peles intactas, ela apenas “sentava”, e qualquer um ao perceber a presença asquerosa e ambulante dela, já se posicionava em estado de espanta-espanta.
    Vejam que este inseto chamado mosca, voejava por todas as podridões mundanas e por isso mesmo não era de escolher os espaços a conquistar. Ela apenas vivia no fundo de seu desejo a necessidade de deflagrar, ela era apenas a deflagradora.
    Ainda hoje, pela manhã, ela estava junto da roda de meninos e meninas de rua que dividiam os pães dormidos, que o comerciante não conseguira vender no dia anterior, e que por isso foram doados do fundo de seu caridoso coração. A mosca cercava a boca de cada uma das crianças, e quando uma delas arrancando um pedaço de pão salivou e salivou para criar aquela massa suficientemente consistente para render por tempo indeterminado, mas esqueceu a outra parte da parte em sua pequenina mão, a mosca voejou veloz para o pão, justamente no espaço aberto pela boca da menina faminta. Mas ali nada podia ser estragado e todos comeram.
    Ela era muitas e era uma só. Pousava sobre as pastas brilhosas e quentes deixadas pelos cães no asfalto, e depois sobre o buraco inflamado de pus e sangue de uma belíssima espinha recém espremida. Podia constatar, internamente, que um gato estava de fato morto e que dia após dia apodrecia nos cafundós de sua própria desgraça, e depois acompanhar a degustação maciça das comidas instantâneas de rua.
    Sim, estava de corpo presente na zona norte, e não desamparava os da zona sul, ela estava em todos os extremos divididos de todas as cidades. Qualquer cheiro ou secreção a atraia e no quarto de motel entre o par amoroso que copulava, ela buscava nas entrelinhas dos espaços quase fechados, guardar aquelas carnes expostas só para si e novamente pousar sobre o resultado de tanta entrega e tanta fertilidade.
    Nunca será possível se livrar totalmente de seus serviços. Ela é um bem para a exaltada presença de nossos corpos. Falaremos em antro, falaremos em imundice, determinando os lugares de sua existência, mas a verdade é que a mosca de nossos dias materializada em minúsculo corpo, sempre estará à espreita, numa lógica de que: Ela só existe assim definida porque nós existimos assim nos definindo.


obs: Quis falar da mosca e falei, mas vejam que o nojo gerado não é essencialmente dela ,e se tiver conseguido aqui a "catarse do desprezo" terei ficado feliz .

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