sexta-feira, 7 de maio de 2010

FATOS REAIS ALEGORICAMENTE TRÁGICOS! ...Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, prefiro estar vivo... (RISADAS palhaçais na platéia)

Prólogo: Ao se Levantar e ao ser Derrubado!(um corpo)
                                    ...sem margens

O dia de sexta havia finalizado e todos dormiam, agora já era o dia de sábado, da madrugada que era vencida pelas horas. Tudo estava inerte até as 5:00 da manhã, um corpo havia se levantado, o peso da responsabilidade o acordara com mil beijos carinhosos. Isso porque havia satisfação em levantar para a vida. O corpo lentamente se movimentava e realizava por etapas todos os ritos iniciais do dia. No banheiro a ação imediata era um banho para desativar os últimos níveis da sensação onírica (antes continuasse nesse estado), mas depois que a água fria jorra no corpo todo, tudo fica desperto, os sentidos gritam e o sangue agita-se nas veias, o pulso é marcadamente regular.
Uma luz ligada e todas as outras apagadas. Uma porta aberta e outra arrombada. Aos poucos outros corpos despertos e vindos de fora venciam etapas no plano da ambição, primeiro as grades tinham sido superadas, depois uma porta cautelosamente tinha sido vencida, a porta que dava para a parte interna da casa. Os invasores, já dentro, foram direto ao cômodo mais importante, o quarto da dona da casa. O quarto estava trancado, mais nervosos ficaram os desesperados, até perceberem que havia alguém já acordado na direção do banheiro.
Os passos apressados mais uma vez dançavam o ritmo da modernidade (impaciência), ações rápidas e não racionalizadas. Bastava que o corpo abordado no banheiro, sem falar nada, cedesse a chave do quarto da dona da casa para os que empunhavam o ferro, a pólvora e o gatilho mortal na sua cabeça. Dessa vez a consideração das consequências venceu os passos apressados. O corpo rendido pela arma não hesitou em alertar (com um grande grito) todos na casa sobre o perigo já estabelecido de ladrões.
Foi tudo muito rápido: repressão violenta, contrariação imprevisível, execução sumária.
Acredito que não deu nem pra sentir o impacto da pressão sobre a cabeça, nem o dilaceramento, nem a dor e nem o gosto da pólvora. Um corpo havia sido derrubado, os sentidos foram apagados abruptamente, o sangue escorria irregular, o pulso era marcadamente nulo . O corpo lá, estirado no chão, na poça de sangue, quente e úmido, era o de Fernando, e agora todos da casa, perplexos e em roda  de descrença, viam o jovem dormir e nunca mais acordar para completar a sua teoria artística aplicada à realidade.

FIM...


Antes do Fim e a Primeira Relação dos Passos

A um sol meio morno do final da tarde de um sábado andávamos pela rua de meu bairro, eu e meu irmão. Violão, músicas, disposição e pés. Iríamos ensaiar como é comum aos sábados para nós. Beirando a encruzilhada de uma rua para a outra, praticamente esbarramos com um conhecido meio-colega, meio-amigo, o tempo que não nos víamos me previne para não chamá-lo de amigo, mas os favores que ele já me fez e sua sinceridade não me deixam desqualificá-lo desse título, enfim ficamos por um meio-colega-amigo. Naquele dia do esbarramento , da surpresa e do “há quanto tempo” ambos tínhamos pressa, nossos pés assandalhados, seis ao todo, dançavam o ritmo da impaciência, em contrapartida o impulso da consideração que tínhamos uns pelos outros duelava inconscientemente com esse ritmo dos pés de nossa tendência moderna, não demorou e a consideração foi derrotada pela pressa, foi muito rápido: surpresa agradável, cumprimento, perguntas convencionais, e um adeus precoce, tudo isso sem pararmos os passos. Meu colega-amigo naquele dia estava de branco, tinha deixado os cabelos crescerem e seus olhos eram vagos como sempre foram desde o dia que o conheci, quando ainda estudávamos na mesma sala de um ensino fundamental a anos atrás. Meu colega-amigo finalmente encontrou a encruzilhada e sumiu de nossa vista, ia vivo, disposto. Aos dizeres de uma música de Arnaldo Antunes, que não me sai da cabeça digo que até ali, na re-existência imediata da vida de meu colega-amigo para mim, pensei que o seu pulso ainda pulsava, assim como o meu pulso ainda pulsa mesmo diante de todos os males que eternamente nos espreitarão.

Memória da primeira Simpatia

Lembro que ele sempre teve aspirações para o desenho desde aquela época, e é justamente desenhando que ele sempre me vem à memória. Desde o ginásio ele já desenhava anjos em busca da perfeição, os anjos eram etapas para o seu desenvolvimento. A empatia dos seus desenhos me chamou a atenção. Desde ali mantivemos certo contato, que dependia muito da posição de nossas cadeiras na sala ou de um trabalho em grupo qualquer. Depois descobri que ele morava muito próximo a minha casa, bastava descer a ladeira (que é a minha própria rua) e ir em direção a feira do bairro que já daria para ver na primeira linha de casas espremidas entre um espaço de uma calçada e um pedaço de terreno previamente invadido (que foi como todo o bairro nasceu) a casa de meu colega-amigo. Meu colega-amigo estaria ali sempre, possivelmente desenhando , largando de mão os anjos e progredindo para a técnica de traçar rostos e corpos humanos. A primeira vez que fui a casa dele, foi justamente isso que observei, uma variedade de quadros vivos de cores expressando a mímesis humana. Certa vez ele me ajudou em um trabalho de artes, onde era necessário pintar de forma expressionista uma paisagem idealizada por mim mesmo. Nessa época já não estudávamos juntos, mesmo assim ele passou horas comigo construindo o trabalho, foi fundamental sua ajuda, não pelo trabalho em si, mas pela compreensão que obtive depois de tudo concluído. Compreendi que um quadro nasce aos poucos da paciência, da atenção e da apreciação da idéia inicial misturada ao real, nunca temos como produto final nem a idéia inicial do quadro e nem o real bruto, mas sim a criação, a arte em si. Essa idéia revelada a mim pela observação de meu colega, era novíssima, vinho sofisticado pela duração prolongada. Era a lógica da natureza de toda a vida, muitas vezes negada, que surgiu da boca e se tornou verbo: oficializa...A incerteza...do final!

Às bases Sólidas e Influentes

A mãe de meu colega-amigo é a típica dona de casa, que trabalha e diz que não trabalha porque não tem um emprego... Mas ela tem um quebra-galho autônomo de costura. Adiantada pelo serviço pesado a aparentar fisicamente velhice, velhice que só tem precocemente as mulheres que abdicam do direito de perceberem sua beleza feminina, para seguirem o estigma nobre de serem carregadoras de mundo, o mundo familiar e bem estruturado que todos os moralistas têm orgulho de afirmarem ter. É uma Mãe, disposta a dar todas as possibilidades para os filhos de terem um destino melhor que o dela.
O pai de meu colega-amigo era também um trabalhador autônomo, trabalhava como consertador de ventiladores, mini-moinhos de vento. Ele era o trabalhador, pois sucumbiu a uma cirrose de seu amado vício. Eu acho importante salientar que esse pai sucumbiu sozinho, em um tempo que tinha se desentendido com todo o resto da família. Ficou só o gosto salgadíssimo do arrependimento, do desentendimento, da morte, e das tantas lágrimas de tudo isso.
As estatísticas sempre apontam que determinadas zonas de uma cidade tendem a ter seus jovens marginalizados como: ladrões, drogados ou baderneiros sem civilização. Mas as estatísticas são pura ilusão de quem quer continuar mantendo certa divisão de classes, certíssima divisão de classes. Reproduzem o discurso das estatísticas todos que tem sanidade. Por isso digo, meu colega era insano e subvertia as estatísticas, por que essa é a coisa mais fácil que se pode fazer, basta que exista sempre alguma pessoa para lhe apoiar, dar as mãos: uma mãe e a intenção instintiva de projeção nos filhos, um pai e o ofício da moralidade e também (no caso desde pai), o ofício de consertar ventiladores (repito: mini-moinhos de ventos) e em ambos o desejo de não fracassar mais uma vez nos filhos.
E lá na casa, no meio de todo o comum acerto de posições de cada ser, do homem, da mulher, e dos gatos e cachorros de rua, e da TV, e do sol e da lua, marcadores do tempo, insurgiam sonhos na cabeça de meu colega-amigo, o mundo idealizado tomava domínio de uma situação onde se joga a toalha com o rosto mais feliz de todos. EU também sonhava, e o tempo passava. Os conflitos sobre o que ser sempre vêm, são eles que nos constituem vivos. Mas se você dentro desses conflitos consegue sustentar uma lógica do que se quer ser, pode ter a certeza que tens um bom lucro no complicado esquema de viver. Essa era a principal diferença entre mim e meu colega. Eu não era, mas queria ser, ele era, e sempre foi.

Técnicas de Arte para a Realidade

Os anos nos levam a ter a idade jovem, somos conduzidos a ter o espírito mais controverso da todas as fases do ser humano. Variando entre 19, 20,21... Sentindo qualquer peso já de todas as responsabilidades que nos são impostas pelo superego. É nesse ponto que muitas vezes desistimos de nos sermos, mas é claro que muitas vezes, nessa mesma época também existem aquelas pessoas que se são com intensidade cada vez mais visível. Daqui de meu ponto de vista, cercado por empirismo, eu posso dizer que Fernando (e esse era o nome de meu colega-amigo) era convicto, na simplicidade de sua vida, ele era convicto de ser ele mesmo. Queria aplicar as mesmas técnicas de pintura de um quadro a sua própria condição, e aos poucos galgava os sucessos desse seu querer. Sonhar e realizar, realizar o sonhar, ter chance de acreditar, ser capaz de todo o corpo e espírito de criar, é assim que penso que esse jovem se comportava, partindo do principio de ele ser um jovem.
Quando Fernando tinha 24 anos, ele pensou em todos os altos e baixos de sua vida, olhou a casa no bairro humilde em que morava e viu como tudo ia se transformando graças ao suor de seu trabalho, graças a sua paciência em desenhar, pintar, esculpir tudo com muita cumplicidade, respeito, sabedoria, exatamente todas as significâncias de seu nome. Para que pudesse ter mais chances de realizar os seus sonhos, Fernando deixou para traz toda a realidade do Bairro em que sempre morou e foi morar com a Tia de condição financeira melhor, mas ele se mudou para ter mais facilidade de chegar no horário em seu trabalho, trabalho esse que exigia a pontualidade coerente de um empregado que havia sido promovido. É morando com a tia que Fernando terá mais avanços como formiga operária desse instante. Por enquanto... Ele não tinha opção.

o Destino passeia com mãos a Decisão

Morando com a tia tudo ia bem, toda a aparente boa vida da classe média de sua tia não condizia com o jeito de Fernando, mas tudo ia bem. Fernando nunca deixava de visitar sua família religiosamente, quando dava. A mãe sempre o esperava ansiosa para saber das novidades do “progresso”, inconsciente também buscava aquela sua projeção. Foi numa dessas suas visitas que nos encontramos por acaso na rua, naquele sábado da pressa mútua, só mesmo durante o tempo de uma passada de esquina. Enquanto eu ao lado de meu irmão seguia para a realização da tarefa do momento, ele, Fernando, vindo direto do trabalho, iria fazer uma visita de final de semana para seus entes familiares do Bairro: uma mãe, um irmão e uns primos, levar um dinheiro que ajudaria aos da casa e seguir, pois tudo era uma visita apenas. Ah Destino!... Fernando precisava voltar para a nova casa onde residia a instantânea estabilidade financeira pintada, não a da casa, mas a da sua própria vida sonhada.
E ATÉ aqui iriam se passar mais ou menos duas ou três semanas de vida... Conquistada, em processo de conquista, e a se conquistar. Depois tudo se resumiria, ali, na casa da tia, ao instante do ceifamento das conquistas, das vontades e da mensagem da cabeça ao corpo dizendo: VIVA!

Quereres Opostos a Origem do Palhaço e o Fim!

Sei por blocos fragmentados de informação que o jovem Fernando Morreu. A partir daí, pensei nos blocos fragmentados de memória que tinha dele e depois nos blocos fragmentados de importância que todas as outras pessoas que não saberiam dariam a esse fato trágico (a morte de um jovem). Seriam no máximo blocos fragmentados de qualquer coisa inexistente...
Uma opinião mais clara da minha parte?Objetiva? O fim para o texto da memória e da percepção? Vamos ver se vou concluir agora toda a minha subjetividade sobre o fato, não é um desabafo, mas apenas “subjetividade objetiva” resquício das certezas de um heterônimo de Fernando Pessoa, para o corpo de meu amigo-colega Fernando, vamos ao fim...
...Queria pelo menos eu sentir o peso de sua morte, para prezar mais pela vida, para impedir os meus passos automáticos de agirem sempre a atropelar a sensação da escolha, das minhas escolhas. Queria que tudo não fosse apenas mais um funeral lacrimoso e queria o peso do silêncio (que nunca existiu) depois da explosão da arma sobre o jovem jogado, jazido interrompido, para que fosse marcado aquele instante na empatia das minhas ações futuras. Mas tudo foi só mais um acontecimento trágico, que não teve nem o “privilégio” de ser fertilizante nas estatísticas. Nem um jornal,de todos esses falsos que rodam por aí, redigiram esse número nos assassinatos do final de semana. Todos nós leitores da realidade, decoramos todas as peculiaridades de cada vida que morre, graças as informações, e se não fosse a alteração cômoda de um tom, que vem depois da notícia da morte (e se encaixam aí, as modelos fazendo pose, os comercias de compre, os anúncios da comédia, o passatempo, as cores do arco-íris, a ambição...) não suportaríamos o peso de uma bala explodindo as cabeças de jovens anônimos. Por isso é que temos um sorriso de palmo a palmo do rosto reprimindo a lágrima, é pra isso que serve a maquiagem, para disfarçar aquilo que na verdade queremos mostrar, essa é a origem dos palhaços...

FIM LITERAL...










...E O INFINITO...








...E O ALÉM INFINITO, SEGREDO...






...SÓ NÃO PARA OS MORTOS!

Obs: uma das histórias que são contadas sobre a origem do palhaço(e é a que eu uso no texto) é a de que havia um bobo da corte que precisava se apresentar a um rei, mas esse bobo da corte perdeu o seu pai justamente no dia da apresentação, como o bobo não podia deixar de se apresentar, e seu rosto era de uma profunda tristeza, ele criou uma maquiagem que escondesse a face triste e “assustadora” e mostrasse uma face eternamente alegre e também “assustadora”(esse “assustadora” , eu coloco por minha conta), a maquiagem perdura até hoje e chamamos esses comediantes no Caos de palhaços.

2 comentários:

  1. Aah meu amigo, queria eu que pudéssemos ao menos sentir o peso de seu texto, "pra sentir o peso da morte, pra prezar mais pela vida"!

    "Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma" Fernando Pessoa
    Eu diria mais, quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma vida!

    ;*

    ResponderExcluir
  2. Ramon, seus textos são verdadeiramente maravilhos. Algo de profundo real e intimo. Tem postagem nova no meu blog.

    ResponderExcluir